quinta-feira, 26 de março de 2009

Prelúdio SEM saudade

Ou como vim parar aqui.

Comecemos pelo começo e, como diria nosso amigo Jack, vamos por partes.

Em 2007 a vida andava normalmente, mas algo me tirava o sono: estava desesperado por acabar o ensino médio (pra mim, desde o décimo ano, caça-níquel inútil). E o meu desespero, por mais injustificado que parecesse, tinha um motivo: por meios normais, estaria em vias de me formar. Por acaso do destino, me formaria só dali a um ano.

Acaso do destino é um cacete. No oitavo ano, logo que entrei na Aitiara, me deram a opção de escolher entre ir pro próprio oitavo (onde havia feito uma semana bem-sucedida de experiência) ou ir pro desconhecido e problemático nono. Muito sagazmente, armaram toda uma encenação para eu achar que havia escolhido o oitavo. "Hey, vamos fazer a Flauta Mágica amikow?". Na verdade não estava escolhendo nada, estava indo pro óbvio de um garoto de 14 anos.

Por algum tempo achei que tivesse feito a escolha certa. Até que veio a bomba explodiu, no onze, em 2007.

Encheu a paciência. Estava com 17, quase fazendo 18 anos. Podia ser preso, podia ter conta em banco, podia até dirigir, mas tinha que entregar um caderno no final do bimestre, senão bomba. Mesmo tirando 9,5 na prova.

Mas ninguém me deu ouvidos. Claro que não pô, mais um adolescente com crises existênciais, coisa mais normal do mundo. O problema é que subestimam DEMAIS os, como diria Mafalda, "Seres humanos em vias de desenvolvimento". Acham que somos amebas, tontos demais para sermos donos do nosso próprio nariz. E com 18 anos eu já tinha bastante noção da merda que estaria para acontecer.

Sabiam que fui convidado a me retirar da escola? Isso ninguém nunca comentou né? Final do 11, um dos professores que eu mais admirava, numa daquelas discussões inflamadas sobre estar atrasado um ano, de saco cheio da escola, me solta:

-Se você não tá feliz, vai embora ué. Alguma escola deve te fazer feliz.

(E o interessante é que já havia sido falado isso, no ano anterior, com aqueles horários absurdos até as 17:45 trêz vezes por semana. Mas, idiota que sou, resolvi dar uma chance, afinal cortaram algumas horas semanais de aula, inclusive dois horários inteiros foram retirados da grade.)

Daí, na mesma semana, escuto da minha mãe:

-Você não tá fazendo nada, vou te mandar pro Rio (de Janeiro), pra uma escola bem puxada, pra ver se você faz alguma coisa.

Se é pra alegria geral da nação, simbora!

O duro é que ambos (o professor e minha mãe) não dosaram as palavras, e quando eu disse que de fato estava caíndo fora pra algum lugar que me respeitasse, ambos voltaram atrás, com o professor dizendo, inclusive, "não imagino o décimo segundo ano sem você".

Cabeça dura que sou, estava irredutível. Iria pro Rio, estudar num colégio picão pra entrar na faculdade. Afinal, Demétria já era mesmo (teoria que eu viria a comprovar na minha festa de despedida, mas isso é assunto para outro post).

Falei sobre isso com uma porrada de gente, dos mais variados intelectos e diferentes idéias. Cheguei a conclusão que o melhor (e mais prático) seria ficar mais um ano na escola. Afinal era "só" um ano, que mal poderia haver? De qualquer maneira, estava pronto pra guerra, ou simplesmente pro "pior ano da minha vida".

Incrível como tenho azar em anos terminados com "8". Em 1998, morre Frank Sinatra, Tim Maia e Akira Kurosawa, eu tenho a professora de segunda série mais chata impossível (seu hobbie era tirar o nosso recreio e, acredite, pra uma criança de 8~9 anos, isso é bem grave). Em 2008, lá vem outra trauletada.

O ano começa com grandes professores indo embora, os ruins ficando e os bons desanimados. Desânimo esse contagiante, porque de fato eu também fiquei desanimado.

Em julho já estava de saco cheio. Eu havia falado no começo do ano que seria o pior ano da minha vida, e no meio reiterei essa teoria. No final só veio a comprovar que estava certo.

Dirão vocês: "Ora, mas você teve a euritmia, que foi maravilhosa, te levou pra Alemanha e pra Argentina!". Uau, que mais?

"E o conservatório?" Por causa da rotina frenética do último ano da escola, não consegui me dedicar tanto quanto gostaria a ele. E meu estado de espírito refletia nos meus poucos estudos musicais: não conseguia de jeito nenhum me concentrar em uma partitura que fosse.

"E o TCC?" Dependia exclusivamente de mim, e eu tinha na cabeça que iria fazer o melhor TCC de todos os tempos. Não foi o melhor porque eu não tive preparo de apresentação, não tive apoio dos professores que eu precisava (ter que escutar do professor de música, NA VÉSPERA, que "você sabe que não canta bem, você tem certeza que quer fazer isso amanhã?) e escolhi 3 temas grandes demais para apresentar em meia hora. Fiz o melhor que pude, e o resultado tá registrado pra quem quiser ver.

O samba no meu TCC. Valeu galera, nunca vou esquecer da ajuda de vocês!

"E..." Acabaram-se os argumentos. Enquanto discutia com o imbecil e despreparado professor de química, que fazia questão de medir forças comigo (cômico, nada a acrescentar), pensava no que fazer ano que vem. Com um preparo pífio, encarar o vestibular seria disperdício de dinheiro. Botucatu nunca mais, fosse fazer o que fizesse, faria bem longe desse fim de mundo.

A única certeza é que pra mim acabou o meio Waldorf. Não estava afim de ir pra Europa fumar maconha nos Camphill da vida, ou qualquer coisa do gênero. Ou ficava no Brasil, ou ia pra qualquer outro lugar.

Eis que em julho de 2008, vem a sister Natacha pro Brasil, ver o João de Deus. Minha avó que já a conhecia encontra-se com ela, e trocam uma longa idéia sobre esse lugar onde me encontro, IDEAL Society.

Beleza, uma ótima hipótese, que foi ficando cada vez mais real, até a chegada da carta-convite para minha pessoa, em novembro. Maravilha, Canadá, aí vamos nós!

Paralelamente a isso, eu gritava aos quatro cantos que ninguém ia repetir de ano na minha sala. Ninguém, nem mesmo o hepteto mais vagabundo e sacal da escola (do qual eu fazia parte, evidente). Muito terrorismo se fez, professores-diretores da escola falando que pensavam seriamente em reter alguns alunos pro doze do ano que vem, e lá vai. Mas eu estava com a consciência tranquila. Sabia que ia dar em pizza. O resultado foi meia dúzia de recuperações cômicas na última semana, uma entrega de dependência do 11 ainda mais inútil, e dois professores falando basicamente "vocês não fizeram merda nenhuma esse ano, mas nós resolvemos passar vocês porque esperamos que a vida dê jeito". Ria-me por dentro, não deu outra. No joguinho de terrorismo, o óbvio ululante que pulula nas mentes humanas prevaleceu.

É nóis, fundão até morrer! Todos passaram de ano, nenhum com glórias.

Voltando ao Canadá. No dia da formatura peguei meu diploma, último documento necessário para conseguir o visto e viajar pra cá. Janeiro aquela correria, negociações e todo o resto, e visto em mãos dia 29, válido até dia 30 de dezembro desse ano..

Visa!

Nesse meio tempo, fui pra SP. Mudanças em Botucatu me forçaram a isso. Encarei, e de janeiro a março (quando viajei), fiquei alternando entre Rio (onde fiz uma das melhores viagens de férias da minha vida), São Paulo e Botucatu (onde fui pra organizar e pra festa de despedida propriamente dita). 14 de março pego o Boeing 777-300 da Air Canadá com destino a Toronto. Mais tarde encaro o Embraer E190 de Toronto para Calgary, onde uma alegre comitiva me esperava.

Orgulho nacional

Abaixo, a música que me acompanhou durante o último ano:

"Desde o início de nossas vidas
Somos empurrados para pequenas fôrmas
Ninguém nos pergunta
como gostaríamos de ser

Na escola eles nos ensinam o que pensar
Mas todos dizem coisas diferentes
Mas estão todos convencidos
De que estão certos

Então eles continuam falando
E nunca param
E a certa altura você desiste
E a única coisa que você pensa
É essa:Eu quero sair - e viver minha vida sozinho
Eu quero sair - me deixe ser
Eu quero sair - e fazer coisas do meu jeito
Eu quero sair - viver minha vida e ser livre

As pessoas me dizem A e B
Eles dizem como eu devo ser
As coisas que já me são claras

Então me empurram de um lado para o outro
Eles me levam de um lado extremo ao outro
Me empurram até
Que não haja nada para ouvir

Mas não me levam ao máximo
Calem a boca e saiam daqui
Porque eu decido de que jeito
As coisas vão ser

Há um milhão de jeitos
De ver as coisas na vida
Um milhão de jeitos de ser um idiota
No final, nenhum de nós esta certo
Ás vezes nós precisamos ficar sozinhos
Não, não, não, me deixem só."

Esse é o prelúdio que não vai deixar saudades. Espero que tenham gostado. Juro que daqui pra frente os posts serão menos desbocados e tratarão exclusivamente da vida aqui.


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